O Outono

O outono vem, pela calada da noite, libertando a Terra do calor que a assolou durante o dia, num Verão tardio.
Chega confusa e deslocada.
As coisas já não são como eram dantes.
Antigamente, chegava com pompa e circunstância.
Os dias a escurecerem pelo final da tarde, as chuvas que fustigavam de quando em quando a anunciar o fim do tempo estival e a convidar a uma roupagem adequada para o tempo incerto.
As andorinhas, cruzavam o céu outonal, a anunciar a chegada da estação que precedia o Inverno. E depois, entrava ela, trazendo ventos, chuvas, dias amenos a tender para o frio e noites muito frescas.
Era aguardada pelas populações, de guarda-chuvas na mão ou pelo menos, a postos no bengaleiro. Umas roupinhas de meia estação a tender para o quentinho e não como na Primavera, em que as roupas de meia estação, tendiam para o fresquinho.
O pijama mais grosso, era também um sinal do tempo de Outono.
Tudo mudava.
E à chegada dos dias mais carregados, as pessoas aconchegavam-se no sofá a bebericar um chá quente e a usufruir de momentos em família mais caseiros e aconchegantes. Mais para o fim da estação, com os olhares a fugirem de quando em quando, do écran da TV para a lareira ainda apagada, mas desejada.
Tudo mudou.
Hoje, o Outono chega com a insegurança de um intruso, de alguém que não foi convidado, mas que todos esperam. Entra, com a incerteza de quem não sabe bem qual será a receção. De quem não sabe, em que condições terá de desempenhar a sua função, ou se as poderá sequer exercer.
Vem cansada, pois chega a tempo, mas o tempo já não é igual e não sabe por quanto tempo se prolongará a sua estadia. Terá de se arrastar por corredores e gabinetes, até que finalmente seja chamada para entrar em ação. E quando é que isso acontecerá. Costuma desempenhar o seu cargo por três meses cada ano. Atualmente, já não respeitam a sua soberania, e exigem que chegue na data prevista, mas assuma funções muito mais tarde.
Não está a ficar mais nova. Impacienta-se com a morosidade do processo e a falta de empenho.
Tingir as folhas de vermelho, antigamente, era tarefa para uma semana. Hoje em dia, pinta-se algumas hoje, outras amanhã e o processo arrasta-se por um mês inteiro, se necessário, numa tarefa sem canseira e monótona. Parece que está a empatar.
Mas chegou.
Sentada no trono do tempo moderno que a manda esperar até que nova data lhe seja atribuída para se apresentar. Por agora! Não sabem se será data a fixar ad eternum. Para o ano, pode ter de recomeçar na data habitual.
Maria Sou