O momento

Gostava que este momento não acabasse.
O momento que antecede a partida.
No curto momento entre afazeres e despedida, tudo é possível até voltar atrás ou não ser verdade.
Durante esse pequeno instante, podemos acreditar o que quisermos. Tudo se resolverá e o pior não vai acontecer. Não é necessário acontecer.
Nesse espaço de tempo decisivo entre o estar quase tudo ultimado e o ir, comportamo-nos com a esperança de que nada ainda é certo, embora de quando em vez a realidade surja clara e sem ilusão e um aperto na garganta seja prenúncio da tristeza que se segue a uma perda.
Talvez seja necessário o último minuto para se saber que afinal, não se quer ir, não se quer dar aquele passo. Para se saber que nem faz sentido algum dia se ter pensado daquela forma.
E o olhar procura com que se distrair e trazer de volta a normalidade á alma que nele se reflete e está suspensa de esperança.
O momento chega e não há magia.
No último momento, o telefone não toca, nem ninguém chega a correr a impedir que o destino se cumpra.
Só existe a opressão no peito que por maturidade não deixamos que se sobreponha a todas as outras emoções. Cumprimos com o decoro social sem sobrecarregarmos os demais com as nossas mágoas.
Cumprimos o protocolo das despedidas, suspirando em segredo por nos podermos isolar no nosso lugar e nos dedicarmos ao turbilhão de sensações que nos invadem, ou apenas nos deixarmos levar, vazios de tudo o que tínhamos planeado e se gorou. O recomeço.
A vida é assim, cheia de fins definitivos sem reviravolta.
Momentos dentro de um momento.
É o peso do adeus. A dor do recomeço.
Maria Sou, in "..."