Na boca dos outros
Ama tudo o que tem, porque nada lhe caiu do céu. E aqueles que se fizeram sobre a sorte, que não que ousem agora cantar vitorias sobre as suas conquistas, já que deles nem reconhecimento teve.
Se era azul, devia ser vermelho como os demais. Se era redondo, não era o redondo ideal, se achatado, sem serventia. Devia ser esguio e alto, como todas as outras garrafas, mas tinha nascido um prato!
Não faz mal!
Custou a perceber, mas os caminhos também se percorrem sozinhos.
Por vezes, tem de se deixar para trás os elementos básicos de uma bagagem e com dor mas confiança, perseguir os sonhos e sobretudo a sanidade que a loucos incomoda e dizem que e' originalidade. Mania que e' bom!
Se falam longe de ti, ou estão a mentir ou a fazer intriga! Foi sempre o seu lema.
Dizem-se mas não se comprovam.
Serão ou achar-se-ao?
E o prato fica de lado sem serventia entre garrafas.
Rebobinar. Descobrir onde pensando que fazendo parte do todo, se e' preparado para ser detrito. Matéria residual. Porque e' fino, porque e' fraco ou porque e' feio.
A peça segue e o caco fica. Mas o caco pode sempre associar-se a outras matérias e fazer de si, um material belo e útil. Nessa altura, ninguém diga:" era material nosso", porque o tempo passou, a vida seguiu e o caco não quer perder mais um minuto com promessas do que pode vir a ser, porque já e'. Se mais ninguém apostou, apostou o caco, tardiamente, sofrido e desiludido. Mas não podia esperar mais, ou acabaria apenas por ter sido o que diziam que era, e não o que era capaz de ser.
E a garrafa em toda a sua pujança verte o liquido transparente, de cor suave e de odor frutado para o copo.
O copo... esse parente afastado, também de qualidade, mas não tão elevada como a da garrafa. Porque a garrafa e' mais alta, tem mais capacidade, mais matéria prima, enfim, mais. A palavra diz tudo. Por isso, define-se a ela própria, como superior.
Eis senão quando, no gargalo oscila em dediquilibrio uma gota do líquido que comporta e que ameaça escorrer pelo corpo esguio abaixo da garrafa e manchar a toalha que num ataque de pânico ameaça atirar-se ao chão se necessário para salvar o branco integro do pano adamascado, que aquela abjecta criatura ameaça profanar, sem noção da superior qualidade do material que está em risco de danificar.
O prato e' trazido e colocado sob a garrafa, pondo fim a tamanha agitação. Nem a garrafa deixa cair a gota, nem a toalha se mancha.
E `a custa do prato que um dia foi caco, a garrafa pôde continuar a subir `a mesa, em vez de ficar esquecida a um canto de uma qualquer arrecadação. Ou pior! Ficar na cozinha, para guardar o azeite puro que vinha da quinta, em garrafões.
Maria Sou
Historia de um caco