Aproveitem para ensinar cineastas, escritores e afins - Pompeia

Pompeia.
Não se encontra no género de filmes que me agradam. Não pelo tema, mas pelo fantástico de toda a apresentação.
Forcei-me a ver. Quem sou eu? Se dizem que é bom, vamos ver.
Ainda me lembra, como diria Vitorino Nemésio, como era bom deixar-me transportar para o mundo da fantasia. Dito isto, toca a sentar, ver e deixar que o tema me conquiste.
Não aconteceu.
Nas últimas décadas, tudo mudou demasiado e as gerações recentes, perderam toda a noção do que realmente se vivia noutros tempos.
Pompeia existiu numa época em que uma jovem não saía a cavalo por aí sozinha. Nem sequer tinha contacto com cavalos. As jovens ricas, eram transportadas em liteiras se percorriam distâncias maiores e andavam a pé, se passeavam no meio em que viviam. Os cavalos eram para transporte, sobretudo dos militares. As liteiras eram transportadas, na maior parte das vezes, por servos.
O povo, que vivia em total pobreza, tentava passar despercebido das classes dominantes e dos militares. Facilmente eram condenados à morte e por arrasto, a família toda era condenada também se achassem que a falta o justificava. O mais comum dos crimes, era ser Cristão.
Por esse motivo, e porque o Homem quer sempre lutar por aquilo em que acredita, os Cristãos, embora se reunissem em segredo e divulgassem a Palavra, faziam-no com todos os cuidados e sobretudo, com muito medo de serem descobertos.
Os lutadores da grande arena do Coliseu, quando vindos do povo, lutavam para morrer ou sobreviver para gáudio do Imperador. Ninguém tinha um diálogo arrogante como o que se vê nas cenas de Pompeia. Eram treinados à exaustão, humilhados, mas calavam. Ninguém controlava a mente, que o olhar denunciava. Quando isso acontecia, o culpado era de imediato convidado a não se atrever a olhar o interlocutor, convite frequentemente asseverado por uma chicotada. Um olhar de desagrado, era por si só, uma manifestação de oposição. Inadmissível.
Os criados, e o povo, nunca caminhavam com a confiança de quem sabe que no fim do filme, terão sido o destemido e admirável protagonista. Viviam acanhados, pela incerteza do que o vil acordar diário do Imperador poderia trazer de penoso para as suas vidas.
Os maus e irrealistas diálogos, já foram evidente em 12 anos de escravidão, o que tornou o filme mais uma realização do cinema e não um documento que respeitava a história, mesmo que baseado num caso verídico.
A falta de investigação, a vontade de dar algo de moderno que capte a atenção das camadas mais jovens, roubam genuinidade aos argumentos e facilmente enveredam pelo facilitismo das lutas e perseguições infindáveis.
Outro aspeto a salientar, é que no tempo Romano, as lutas na arena disputavam-se com vários tipos de armas, nem tanto a espada. A rede, a forquilha, o maço, etc. Os lutadores tinham nomes conforme a arma que usavam, como os Mirmilões e Reciários.
Enfim, se querem fazer um filme de lutas e perseguições, chamem-lhe um nome adequado, mas não digam que é baseado num acontecimento histórico. Na fantasia também há vulcões e terras submersas por lava. Chamem-lhe o filme da "Cidade Submersa por Lava e muitas lutas".
Outra coisa que me choca.
De manhã, a programação infantil que devia ser de entretenimento e educativa, é frequentemente repetida e violenta. Sinceramente, não me parece que pequenos detetives, mesmo que para uma série televisiva, devam ser postos em contacto com uma realidade como a da escravatura humana. Realidade séria de mais para a processarem, conhecerem e que não pode ser tratada com a leviandade de uma brincadeira de pequenos detetives.
Mas é a opinião de quem teve a oportunidade de ver grandes produções televisivas em tempo de grandes produções do cinema e leu grandes obras literárias.
Maria Sou