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afterall

Velho inútil - Um novo mercado

por maria sou, em 23.05.18

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O sol quando brilha, não é para todos.

Quem sai à rua, nem sempre transporta consigo a capacidade, vitalidade ou os sentidos apurados, para apreciar esse dom da natureza que tem parte ativa na sensação de felicidade.

Há muito quem saia preocupado com o futuro, como passará o dia de amanhã. 

Por esse motivo, nem olha o sol, o céu, tão pouco em seu redor.

A mente vai ocupada por um turbilhão de pensamentos confusos e que parecem longe de ter solução.

De repente, a vida avançou e soube que já não era útil, a sua imagem já não era agradável, o seu deslocar perdera o dinamismo e os seus conhecimentos estavam ultrapassados.

Começa uma nova fase da vida.

Não aquela que se desejou que chegasse, no fim de uma vida em que se cumpriu com a obrigação de ser cidadão e de contribuir, mas sim, uma fase imposta, que nega todo o valor que se teve, todo o contributo que se prestou e o devido agradecimento pelo préstimo.

Parte vexado e diminuído, quando ainda sentia que tinha muito para dar. Até talvez, acompanhado até à porta, como aquela visita com a qual não se quer ser desagradável, mas que vamos conduzindo entre sorrisos até à saída, sem largar o braço, para que sinta sem duvidar que é aquela a direção a seguir e de preferência sem parar.

Tudo mudou. Tudo mudou muito rapidamente. 

Os mercados são diferentes, as exigências diversificaram, as ofertas surgem em catadupa, sem se ter a certeza se se as quer. Os comportamentos mudaram também e os laços que se não se quebraram totalmente, aliviaram.

E de repente, o velho não tem lugar e é desnecessário. É até um peso, na família, na economia, na saúde.

E de repente, o velho, já nem tem rugas, nem dificuldades de mobilidade, nem está senil. 

De repente, o velho é alguém não tão jovem, mas ainda útil, ainda ágil. Foi apenas dispensado quando se sente ainda cheio de energia, de ideias. Triste, porque de repente, lhe fizeram paragem na estrada da vida. Mandaram encostar a meio da viagem e só segue quando todos os outros, tiverem passado.

E estes velhos, são cada vez mais.

Há um novo mercado que borbulha no interior de cada velho que não quer ficar na prateleira e que urge surgir.

O mercado de trabalho e empreendedorismo das pessoas mais velhas.

Este grupo etário, que chega assim à estação final do seu percurso, talvez tenha de reavaliar a possibilidade de criar novas linhas de circulação.

Constituindo uma amostra tão significativa no universo populacional, há cada vez mais indivíduos dentro deste grupo que ainda se sente com vontade de empreender. Empreender para os iguais, para quem os compreenda. 

A sociedade bipartida. Uma sociedade inovadora que nem todos conseguem acompanhar e uma emergente que se fica pelo que tem e produz para aqueles a quem deixaria saudade se deixasse de existir.

Secando as lágrimas da ignomínia, o velho de hoje, é um velho capaz de se reiniciar, que não iça a bandeira branca a uma imposta velhice prematura e falaciosa. Em vez de se deixar conduzir em catadupa ao matadouro, olha as possibilidades e dá um novo alento ao destino.

A velhice de hoje, tão jovem ainda, pode ser um abanar incrédulo de cabeça à sorte, seguido de um encolher dos ombros à humilhação e um levantar de cabeça a um futuro talvez, ainda por muitos anos.

Maria Sou

 

Procuração p´ra que te quero

por maria sou, em 08.05.18

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Podia escrever diariamente, sobre um qualquer assunto, para sentir que comunico.

No entanto, se todos viermos para o blog falar de tudo e de nada, é o mesmo que estarmos a falar sozinhos, com a diferença que o monólogo fica guardado no ciberespaço.

Pessoalmente, gosto mais de falar do que me toca, quando me toca. 

Hoje, encontrei mais uma daquelas velhinhas que dizem: "Já tive, mas fiquei sem nada. Fui para ser operada e passei uma procuração... " Não preciso de reproduzir toda a conversa para se perceber que os procuradores se apropriaram dos seus bens.

Há sempre os chamados "artolas" que defendem: - A mulher está velha e se morre, que será uma questão de mais ano, menos ano, vai uma grande parte da herança para o Estado em imposto sucessório. Assim, já está o caso resolvido. E também para que é que ela quer o dinheiro com aquela idade?"

Qualquer pessoa, que é proprietária de algo, estando em posse das suas faculdades mentais e físicas, é senhora de pôr e dispor do que é seu. E se quiser deixar a parte disponível para alguém? Já há um ou mais beneficiários prejudicados.

E se na necessidade de cuidados maiores de saúde, precisar dos seus bens para responder pela despesa? A família vai responder? Agora quem tem dúvidas, sou eu.

Mas ela passou a procuração e não há nada a fazer, dirão.

Não há nada a fazer, porque a senhora ficou sem dinheiro para contratar um bom advogado e a agente oficiosa, não está a dar conta do recado.

Pois há um artigozinho, no Código Civil, que deita por terra muitas apropriações desonestas. Há um artigozinho que diz qualquer coisa como, sem ser muito exata: "Um contrato realizado com o intuito de prejudicar outrem, é dissolúvel."

Uma porcariazita assim no género, que nas mãos de um bom advogado, na barra de um tribunal pertencente a um Estado de Direito que zela pelos direitos dos seus cidadãos, fariam correr muita tinta.

Uma procuração passada, para prevenir certas eventualidades, pela qual é sacado todo o património de alguém, deixando-o sem nada, à mercê da boa vontade de terceiros, é um contrato realizado com malícia e a ser dissolvido. Não acredito que alguém veja nesta resolução, um ato que beneficie o lesado.

Uma procuração, não pode por si só, legitimar o que não o é.

A lei é um código pelo qual se rege uma sociedade. Não pode ser alterada por uma procuração que deserda herdeiros, desapropria proprietários e faz de estranhos herdeiros, só porque se teve o azar de entrar no escritório de gente sem moral e corrupta.

Por este motivo e visando a harmonia e igualdade social que é apologia do Estado Democrático, pelo menos, na teoria, agradeço que sejam revistos estes casos e as minhas velhinhas, (que nem conheço pessoalmente, ouvi-as contar com resignação e tristeza e nem cientes estão que neste momento está alguém ao computador a lançar um alerta para os seus problemas), possam gozar até ao fim da vida, do que é delas porque ainda não o legaram.

Irritadíssima

Maria Sou